Terça-feira, 30 de Novembro de 1999

A fazer fé pelos indicadores de renúncia ao voto, de pronto uma conclusão poderemos tirar; os portugueses estão a desprezar a democracia. Contudo, convém dizer, que no passado, ainda recente, os cidadãos deste país muito lutaram, com consequências penosas,  pela conquista deste direito. 

 

E, no futuro que é já amanhã, a avaliar pelos cenários que temos pela frente, a abstenção aumentará, e quando os abstencionistas são em maior número os demais, daí devemos tirar também óbvia conclusão; a democracia como modelo de gestão entrou no trilho da falência.

 

Há, entre os cidadãos, uma generalizada opinião, mesmo entre aqueles que apoiam e suportam os partidos, que o modelo democrático vem perdendo virtudes, em consequência do que, novos cenários hão-de ser equacionados a breve trecho; é preciso reinventar a democracia.

 

Com efeito, acho que os portugueses não estão a fazer um exercício puro e simples de abstenção, os cidadãos têm vindo a dizer que; assim não! Mas assim como? Assim com toda essa galfarreada que temos vindo a assistir. Exemplos? Oh,  inúmeros. Vejamos as polémicas à volta do financiamento dos partidos, por parte dos particulares; vejam o orçamento do estado que tarda, veja-se o crescente endividamento dos cidadãos, olhem para o esmagamento do pequeno empresariado pelas grande superfícies, atentem bem na inexistência de uma política de saúde suportada num plano moderno e adequado aos nosso tempo e aí por diante.

 

Então, o que fazer? Reinventar a democarcia;  é preciso reinventar a democracia,  é preciso que a democracia se democratize, é preciso que essa organização, máquina do governo, funcione em tempo útil de modo a servir os cidadãos e o país, de contrário os eleitores continuarão a manifestar o seu descontentamento desprezando quem os ignora, ou deles apenas se lembre em períodos eleitorais.

 

A democracia está a tornar-se numa coisa que ainda ninguém sabe bem o que é, uma coisa que mais se parece com um estranho bicho, indefinível, cheio de mãozinhas e perninhas com ventosas que se alapa por todo o lado, assim foi o destino do activo e lutador Gregor ao entrar em metamorfose na obra homónima de Kafka. 

 

Mas, poder-se-à abandonar o modelo democrático? Claro que pode e com substanciais ganhos de produtividade, até financeiros, para o país! Então como? Reduzindo desde logo o número de gente no parlamento e subsequentemente as equipas governativas. Porquanto, há gente no parlamento que apenas ali está para se levantar e sentar. Por outro lado, há Ministérios sem estrutura orgânica suficientemente definida, ou com tarefas que antes um simples comissariado desempenhava.

 

Mas, qual é o modelo alternativo?

 

Assumamos que os partidos não são um Deus. A capacidade e a força dos cidadãos é que haverá de determinar os caminhos do futuro, e por isso começo a ficar convencido que o povo aceitará, porventura até desejará, um outro modelo de gestão, um modelo de gestão ad-hocrático configurado este para soluções prontas e imediatas em ordem à solvência das necessidades dos cidadãos, um modelo regenerativo assente em objectivos, assente nos princípios de funcionamento da gestão privada, à semelhança do que Henry Mintzberg sustenta na sua obra  “estrutura e dinâmica das organizações “.

 

A democracia vai entrar em metamorfose. Vai. Eu penso que vai.

 

Leiria, 30.11.1999



publicado por Leonel Pontes às 14:37
Sábado, 06 de Novembro de 1999

A noite havia caído há muito, já passava um bom pedaço das oito da noite. Sexta-feira, 5 de Novembro, limiar do ano 2000, fim-de-semana e princípio de mês. A rapaziada agita-se freneticamente nas redondezas dos grandes centros dos pequenos negócios, neste em particular não porque tenha o nome de homem de grandes feitos em arrojada época dos descobrimentos, mas porque aquele centro comercial faz convergir muita gente, à descoberta...

 

No parque, ali mesmo ao pé, que dá acesso ao mega-espaço, admirei-me haver estacionamento naquela fileira de acesso às largas portas de entrada, mas ponto foi mesmo ali que ficou o carro, ao encaminhar-me para o outro lado da rua, dou conta que os passantes procuram passar de largo, enquanto os mais curiosos se chegavam mais ao perto par saber o que se passava. Dois agentes da PSP especados e uma criança, de oito anos, dizem, que sem saber o que fazer, ali estava como se fosse uma atracção de circo, olhando à sua volta escutando, ou talvez não, a vozearia daquelas estranhas caras.

 

Ora, ali mesmo, delimitando o espaço, estavam umas grades de ferro, daquelas grades grandes para cercear turbas, e por entre essas mesmas repousava um cadáver coberto com uma pedaço de oleado, forte tela que os camionistas usam para proteger cargas. Com diabo era preciso coisa forte e bruta para dar cobertura a um inerte cadáver que aguardava quem lhe deitasse mão.

 

A constante era a indignação manifesta na vozearia, e ninguém percebia porque havia de jazer ali um homem morto. Percebi que um cidadão deste país se havia deslocado ao mega-empreendimento acompanhado do seu filhito, possivelmente para ver toda aquela grandeza, eis se não quando sentiu-se mal. Sentou-se naquele recanto do passeio, concerteza na convicção de que alguém daria uma piedosa mão socorrendo-o para o hospital, mas solidariedade, entre nós, é coisa vaga, e como se ninguém lhe acudisse o homem acaba por morrer ali diante dos olhos do pequeno filho que também nada podia fazer. Hoje, a seus olhos só terá a imagem da morte do pai, sem que ninguém por si fizesse alguma coisa. Ao que se dizia o homem teria morrido por volta das quatro da tarde.

 

Mas para morrer basta estar vivo, e ninguém morre de véspera, nem vai na vez de ninguém, embora por vezes se oiça dizer, que fulano ou sicrano teve um funeral bonito, como se morrer fosse bonito. Basta que vá muita gente, basta que apareça uma ou duas figuras da autarquia, porventura um representante dos poderes instituídos e se estivermos próximos de actos eleitorais então haverá mesmo quem aparece a manifestar palavras de conforto, aparecem umas criaturas com ar pesado, óculos de aro largo e lente de sol, fazendo o frete de acompanhar o finado, e até parece que a morte foi menos morte, porque a dor é atenuada pela importância dos condolentes. De regresso a populaça lá vai dizendo; olha que o extinto até tinha muitos amigos, rebeu-beu-beu e por aí adiante.

 

Coisa estranha que é este mundo, para além dos funestos cenários que  todos conhecemos, ainda venho eu dizer que morreu em sujeito qualquer em Lisboa em plena rua à porta do Vasco da Gama, o que até nem é novidade nenhuma, porquanto ao que se sabe  frequentemente morre gente nas ruas, nas ruas de Lisboa,  onde afinal vive tanta gente embrulhada em bocados de jornais, farrapos e caixotes velhos, onde há pedintes por todos os cantos, como nunca fora visto, onde se transacciona droga como quem prova água-pé em véspera de S. Martinho, onde se pede esmola quase a todo o passo, onde se diz que à falta de mão d’obra para isto e mais para aquilo, etc. etc.

 

Bom e aqui estou eu escrevendo ao mesmo tempo que penso que não sei se estou a escrever para os outros, se estou a dar um contributo à sociedade, se estou sendo incómodo para os leitores do jornal, mas se estou  eu não engano ninguém porque quando me dizem que leram os meus textos, sempre vou dizendo não percam tempo comigo, e talvez até nem esteja a escrever para os outros mas sim para mim. Este é o meu modo de estar na vida, viver o menos amargurado possível denunciando o que posso; nem tudo, pois claro, isso ninguém faz ! 

 

Por outro lado dou-me conta que terminou uma legislatura que foi antecedida de grandes promessas de reformas estruturais, mas não demos por elas. Agora nova legislatura se inicia com promessas de reformas estruturais como seja por exemplo o Ministério da Igualdade, ah deste já falámos um dia destes, porque da Solidariedade já tínhamos, no fundo tínhamos e temos tudo, não falta nada, nem gente que morre na rua e aí jaz por  largo tempo, primeiro porque não havia uma ambulância para socorrer um doente, depois porque era preciso que viesse um delegado de saúde para confirmar que aquele cadáver,  entregou a alma ao criador.

 

Isto é tudo tão fácil, mas nós teimamos em tornar as coisas difíceis, dificeis até de mais. Por este andar, não estará longe o dia em que uns ganham a eleições, outros hão-de governar o país, evitem isso caramba. No tempo do António “o Salazar “ quem ganhava as eleições, aí à força, era quem ele determinava, depois mandava a negligência. Mas, agora, agira não se pode negligenciar tanto.

 

Leiria, 6-nov-99



publicado por Leonel Pontes às 11:40
A participação cívica faz-se participando. Durante anos fi-lo com textos de opinião, os quais deram lugar à edição em livro "Intemporal(idades)" publicada em Novembro de 2008. Aproveito este espaço para continuar civicamente a dar expres
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