Sábado, 05 de Maio de 2007

Nos dias de hoje – parece estar na moda! – por tudo e por nada, os cidadãos dizem-se vítimas e expendem argumentos. Perceber-se-á que, objectivamente, sempre existiram vítimas, como fora, aquelas que estavam no local certo mas em momento errado, daí resultando efeitos irremediáveis, provocados por uma da roda de veículo auto que soltando-se devassou um pátio de recreio colhendo e decepando um braço a uma criança. Esta, de facto, foi e é uma vítima.

 

E, também se diz que, aquele que colhido foi na arena, aí entregando o corpo ao criador, foi vítima. Esse nunca o foi, o que lhe aconteceu, só aconteceu, porque se propôs lidar uma besta desafiando-a para duelo, recebendo por contrapartida uma cornada; o que mais e melhor poderia esperar! Já, os famintos do Darfur esses são vítimas da rudeza humana e aí as bestas são outras, mas obrigados a lide estão; desigual.

 

Dir-se-á, pois, que objectivamente existem vítimas, aquelas que de todo não podem escapar aos acontecimentos. Por outro lado, existem as vítimas subjectivas, tais sejam aquelas que, pelas vicissitudes do tempo, ou da vida, de todo, nem com força de boi, conseguiriam contornar.

 

Mas, vamos ao que vínhamos. Se avaliarmos regiões do nosso país, dir-se-á que estão (são) subdesenvolvidas; serão vítimas, sê-lo-ão por ineficácia política? Em contraponto regiões temos que gozam de benefícios, que outros não têm; mas estes também se dizem e fazem de vitimas. Existem e acentuam-se desigualdades – regiões que querem e têm um sistema fiscal próprio - e podê-lo-ão ter, desde que não provoquem assimetrias; todas! E, por isso, ou por via disso renunciam a poderes legitimados e repetem-se dizendo-se vitimas, ainda assim, gozam de privilégios que outros concidadãos não têm.

 

Não ficará bem estarmos a fazer juízos de valor, apenas reflectimos sobre uma realidade que está encadeada com outras mais realidades. A nossa (a minha) realidade, não cai neste seio, posto que nunca nos faltou que fazer, mas também começamos a sentir que somos “vítimas” dado que começamos a sentir que nunca fizemos tudo o que gostaríamos, e sobretudo sentimos que não fazemos falta nenhuma, porquanto vencidos pelas cornadas de vida vamos ser. Após esse momento tudo continuará, como agora, por fazer!

 

E faça-se reflexão. Esta questão, a das vítimas, talvez fosse questão de estudo, profundo e cuidado. Talvez, fosse tempo de criar um novo ramo de estudo, mesmo que este se sobrepusesse à sociologia, à psicologia, à economia, ou até à filosofia, talvez fosse tempo de criar uma nova disciplina a “vitimologia” em ordem à reorientação daqueles que de facto a única coisa que os afecta é o repudio pela assumpção de responsabilidades de uma sociedade que se deseja justa.

 

Daí que até podem desconstruir o sistema fiscal português – que já vai a caminho disso – e, podem permitir que cada região do país tenha o seu regime de tributação, mas que governem, e que se governem, com o que é seu, de contrário as vítimas somos nós – afinal, neste particular eu também sou vítima – Se de nós (de mim) dependessem também não dava mais dinheiro para o folclore da Madeira, isso não dava! Vitimas ainda se aceita que o sejamos, agora vítima e ao mesmo tempo burro, essa é que não!

 

Leiria, 2007.05.05

 

 



publicado por Leonel Pontes às 11:18
A participação cívica faz-se participando. Durante anos fi-lo com textos de opinião, os quais deram lugar à edição em livro "Intemporal(idades)" publicada em Novembro de 2008. Aproveito este espaço para continuar civicamente a dar expres
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