Terça-feira, 22 de Abril de 2008

Naquele dia (que já era noite, e bem noite, por diferença de fuso) estava o Quartel-General, em Dili, em alvoroço. Havia-se abatido forte tempestade, chovia se Deus a dava. E, chover ali é como quem abre uma comporta. Ao atravessar o leito da seca ribeira de Lacló, eis que o Unimog não aguentou o embate da bátega, voltou-se de roldão águas abaixo, lamas e tudo o mais que uma cheia trás. Tudo foi na levada.

 

Os mais sabidos saltaram como puderam, meteram-se a salvo, mas o Gusmão que havia chegado dias antes à província, nada feito aquelas situações, deixou-se ficar sentado no seu lugar de chefe de viatura emquanto ia na levada, foi engolido pelas águas do Mar de Timor; porventura trucidado pelos crocodilos. Jamais voltaria; consternação.

 

Naquele bulício, começam a chover mensagens sobre a revolução, agora conhecida de Abril. As manifestações eram contidas. Não havia muitos dias, Alves Aldeia, o Governador, regressado de visita à Metrópole havia feito um discurso inflamado, vociferando “vendilhões do templo”, sobre a abortada revolta de Março, nas Caldas da Rainha.

 

Mas, eis que cai sobre a mesa uma mensagem dando orientações para que o Governador, comandante em chefe, cessasse funções assumido-as o segundo comandante. Deixou de haver dúvidas quanto ao sucesso da operação 25 Abril.

 

A revolução venceu, a alegria abafou o desaparecimento de um camarada de armas. Agora é que é, isto agora vai mudar. E, todos sabíamos do que o país precisava; paz, liberdade, emprego, saúde, educação. O país estava prenhe de assimetrias. Estávamos, então, no ano setenta quatro do século passado; parece que foi há muito tempo. Mas não!

 

Hoje que escrevemos pela primeira vez, neste espaço, escrevemos porque pensamos; pensamos no antes revolução, no durante e no depois. E, sinceramente, pensamos que estamos com antes, estamos sem futuro, sem empregos, sem segurança na velhice e sem educação. As assimetrias continuam.

 

Ultimamente, todos temos assistido a manifestações públicas sobre uma das coisas mais queridas da revolução; a educação. E, todos falam, e todos dizem que sabem do que falam. Mas, a nossos olhos, em verdade o que tem acontecido é que se têm andado a semear ventos que, sem dúvida, tempestades vão trazer.

 

Estamos a comprometer, ainda mais, o futuro. Assim não, todos temos de ser avaliados pelo que fazemos, de modo formal ou informal. E quem vale, vale; quem não vale, vai para paquete.

 

Todos precisamos de ser avaliados, mas precisamos sobretudo avaliados por uma nova política. Precisamos de uma política que não seja um emprego, e mais do que isso, que não seja um negócio. Precisamos de política com ideais, uma política que a todos chame para a luta, uma luta de causas, de causas que travem o passo aos desmandos de uma política, que nada tem de social, de uma politica que está a desalojar os nossos concidadãos, de uma política de gente séria e responsável.

 

A educação, a educação de um filho começa sempre três gerações antes, e só por isso se pode dizer o que dizem os jovens de hoje, “ah, se somos assim, somos como nos educaram. Estamos a educar mal. Ninguém pode esperar que sejam os outros a resolver-lhes os seus problemas. Temos que educar para o futuro, para o trabalho e para o gosto por este, para iniciativas arrojadas, jamais alguém poderá esperar emprego pela cunha, pelo emprego político. Quem educa tem de incutir valores, tem que ensinar a abrir caminhos.

 

Quando escrevemos, não o fazemos para pedir desculpa, daí que não peço desculpa a ninguém, nem aqueles meus amigos que têm por profissão; professor, ouso até lembrar que professor é aquele que aprende a ensinar, posto que, quem não sabe ensina, quem sabe, faz. E, pois, preciso mudar mentalidades a professores, educadores e educandos.

 

A  nossa (a minha) geração o que mais poderia fazer? Fez uma revolução, mudou o regime político, lutou e aguentou uma guerra fratricida em várias frentes, lançou alicerces para o desenvolvimento deste país, o que mais se poderia pedir-lhes.

 

E, talvez por isso, ouso dizer ainda. Quem escreve para adulterar os factos, para fazer publicar pseudo sondagens, este foi bem-educado. Não! E, o bancário que enriquece sugando parcas economias, foi bem-educado? Não! E, o empresário (infelizmente, raça em extinção) que não cria cadeia de valor, para todos, foi bem-educado? Também não! E, aquele que goza de reputação pública e daí tira benesses de uso e abusou de indefesas crianças, foi bem-educado? Não! E, aquele que, sabendo e vendo que o País tem muito, se não tudo (porque a evolução dos tempos pede sempre mais) por fazer e não vê o que fazer, foi bem-educado! Este também não foi bem-educado.

 

É, frequente ouvir aos políticos “temos de travar um combate para isto e mais p’raquilo" Agora sim, temos efectivamente de travar um combate sério, precisamos de o travar por tudo, mas sobretudo temos de o travar pela educação. De outro modo, mais dia, menos dia, temos mesmo combate.

E em conclusão, dever-se-á festejar o 25 de Abril. Com a actual matriz;  não. A revolução é, devia de ser, igual a educação; mais e melhor educação é o que o Portugal do pós revolução mais precisa.

 

 

Leiria, 22.04.2008



publicado por Leonel Pontes às 11:40
A participação cívica faz-se participando. Durante anos fi-lo com textos de opinião, os quais deram lugar à edição em livro "Intemporal(idades)" publicada em Novembro de 2008. Aproveito este espaço para continuar civicamente a dar expres
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