Sexta-feira, 21 de Outubro de 2011

Cheguei a este mundo pouco tempo depois da 2ª Guerra Mundial; um tempo cheio de estórias e história. Cheguei no inverno, não existiam sistemas de aquecimento (pelo menos na casa onde fui dado à luz; nem electricidade!), o calor do crepitar da lareira bastava. Naquele tempo não havia crise, havia o Ano Bom.

 

Se as colheitas das terras eram afectadas pela lagarta, o que reduzia a entrada de cereais na arca; logo se dizia: quando vier o Ano Bom, será melhor! Os adubos aumentavam, todos os anos; sem eles as searas não se saiam, e logo se esperava que melhorassem no Ano Bom. A vinha era atacada pelas moléstias (já então tinham estratégias de resistia ao sulfato), a produção baixava, mas com a graça de Deus (tanto mais que o néctar era preciso para dizer as missas) com esta vinha a reforçada fé no Ano Bom e as pipas haveriam de ficar cheias.

 

E poderíamos elencar um conjunto de acontecimentos, permanentes, que no final se traduziam sempre na carteira lá em casa, como no comum dos cidadãos. Cada ano que passava, algo mudava; o gasómetro acabou e veio a electricidade, a salgadeira onde se acomodava as carnes da matança dos porcos deu lugar às arcas frigoríficas; até a minha pedra da escola (a lousa preta) deu lugar às maquinetas de calcular. E enquanto sonhávamos, como dizia o poeta Gedeão, o mundo pulava e avançava. O que era mesmo preciso é que o Ano Bom viesse.

 

Quem é que falava do orçamento do estado, quem é que em boa verdade sabia o que era isso? O jornal, o “Século” custava dez tostões era comprado só ao Domingo (não havia dinheiro para mais). Mais tarde veio o “Expresso”, esse já dizia umas coisas interessantes, mas só era comprado uma vez ao mês; custava vinte e cinco tostões.

 

E o mundo pulava e avançava e vinha eu para a Escola Comercial, à noite num velho Fiat 600 que me gastava vinte escudos de gasolina por semana, já era dinheiro. Passeatas, mesmo com as coleguinhas, era uma vez por festa porque a ordem vigente era “trabalhar” e “poupar”. Mas ninguém falava em crise (crise é um neologismo) a esperança do advir de um Ano Bom era pelo que ansiávamos.

 

Bem como ansiávamos que chegasse o Domingo para dar uma volteca, voltar à cidade para ver as montras, tomar um cafezito num dos cafés chiques da Avenida Heróis de Angola com as novas casas de negócio; foi numa dessas (onde agora está uma ourivesaria) onde comprei o Fiat 600, seis contos de reis, que havia ganho nos serões passados numa fábrica de serração a fazer facturas à mão. Máquinas de calcular? Estavam em crise!

 

E de espera em espera do Ano Bom, dei por mim sem cabelo, mas sempre com o mesmo afã nas minhas tarefas; sempre a trabalhar, sempre as poupar, sempre a estudar; sempre a conviver com uma sociedade que se ia desenvolvendo, pelo meio com uma ida à guerra do Ultramar e sempre com a convicção, que me vinha da educação de menino, que o amanhã será melhor. Esperávamos pelo Ano Bom.

 

Depois de tantas e tantas vicissitudes vejo que os adultos continuam com as ilusões de criança. Para além do Ano Bom (que até hoje não veio) vinha o Menino Jesus que numa noite (só uma, já então, sem o saber, andava em crise) deixava na lareira umas carcaças de pão fino: as carcaças de dezassete acompanhadas de um pacotinho de manteiga Primor.

 

Depois, já adultos, já cansados do pouco que o Menino Jesus dava, passámos a fazer parte do Clube do Ano Bom, nunca chegou, cada um era sempre pior que outro; embora com coisas melhores.

 

Os frangos deixaram de vir da capoeira e passaram a vir do supermercado, as oliveiras passaram a embelezar os jardins e o azeite passou a vir dos supermercados, os campos passaram ao pousio e o leite de vaca passou a vir do supermercado, as panelas de ferro que conservavam a sopa quente por durante dias deram lugar às taparwares metidas nos frigoríficos. A instalação de um telefone que demorava anos, deu lugar aos telemóveis às mãos cheias.

 

Tudo se transformou e passámos a ter “crise” e até dizem que é nestas que devemos parar para pensar no amanhã. Será que o Ano Bom ainda vem? ou é como o Menino Jesus que vem cá só de fugida; vê-nos a penar e vai-se!

 

Estão os tempos de feição para que venha o Ano Bom? Por mim só posso dizer que me prometeram uma coisa e depois enganaram-me; em cada 12 meses de trabalho dei 5 pró rol. Agora quando mais precisava, sou penalizado! Será que nos próximos 50 anos com esta política virá algum Ano Bom?

 

Leiria, 2011.10.21



publicado por Leonel Pontes às 11:38
A participação cívica faz-se participando. Durante anos fi-lo com textos de opinião, os quais deram lugar à edição em livro "Intemporal(idades)" publicada em Novembro de 2008. Aproveito este espaço para continuar civicamente a dar expres
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