Sábado, 02 de Junho de 2012

 

Lembro-me de, ainda miúdo, ter lido entre outras, a obra de Castelo-Branco, Maria Moisés uma aldeã leiteira de ocupação que todos os dias levava aos fregueses o leite da vaca mungida.

 

No percurso, atravessava um rio e na ânsia de mais vender, e mais dinheiro fazer, aproveitava para adicionar ao caneco leiteiro um copinho de água. Ninguém daria por nada, e o negócio corria de vento em popa.

 

Maria tinha uma ambição, comprar um chapéu de palhinha para embelezar o rosto dos seus verdes anos e ao mesmo tempo cobrir a cabeça da soalheira. E, eis que, um dia ei-la de chapéu-de-sol. Um mimo!

 

Porém, a sorte por vezes é madastra. O negócio tem sempre o lado inverso; um dia ao atravessar o curso d'água, soprou inesperada ventania fazendo voar o chapeuzinho rio abaixo. Incapaz de lhe por mão rendeu-se à perda. Disse para consigo “água o deu, água o levou!”.

 

Deixando prá história a estória de Camilo, abordaremos aos tempos de hoje, que também têm as suas motivações, que não as dos chapéus do agrado de Maria. Hoje não temos pequenos produtores leiteiros. Economicamente foram levados água abaixo.

 

Depois de formalizadas um conjunto de acções – outras margens, outros rios, outras ambições assaltam os espíritos lusos – e dá-se a 1 de Janeiro de 86 a adesão de Portugal à Comunidade Europeia, e como ela novos paradigmas da organização e gestão empresarial e de formação de activos humanos.

 

Sempre tive muitas dúvidas do modelo organizacional que geria a comunidade; disse e escrevi n vezes, mas como sempre estive (fui) outsider tudo quanto disse foi lixo. Aliás, ainda recentemente a agenda política europeia para 2010 tinha como objectivos transformar a Europa numa sociedade e economia de “coesão social”. Mas onde está a coesão?

 

Enquanto isso durante um quarto de século Portugal recebeu milhares de milhões de escudos e euros, tantos que ninguém sabe dizer quantos. E, o país enriquecia (assim pensavam) a olhos vistos. E nesse decurso, em vez de riqueza, antes tudo ia sendo desconstruído, os dinheiros nada desenvolviam, antes colocavam empresas em concorrência desleal. Económcamente, comiam-se uns aos outros.

 

E agora? Agora dever-se-ia fazer uma reflexão pública nacional de modo a encontrar novos caminhos. Porventura medida que não agradará porquanto destaparia a cabeça de muitas eminências.

 

Em conclusão, dir-se-á não - mais ou menos - o que disse a Maria, água o deu, água o levou! Mas como uma pequena ênfase, é que na natureza nada se perde, tudo se transforma; bem se sabe quem o disse. Só não disse que tudo o que foi gasto em pavoneios, tudo o que deveria produzir riqueza, tudo o que foi comido e transformado em caudal de esgotos públicos, terá de ser pago.

 

E agora Maria, como se governará a casa? Agora nem a leiteira, mesmo com leite baptizado, passa à nossa porta. Vamos continuar a ver os miúdos a passarem laríca. Não é?

 

Leiria, 2012.06.02



publicado por Leonel Pontes às 15:55
A participação cívica faz-se participando. Durante anos fi-lo com textos de opinião, os quais deram lugar à edição em livro "Intemporal(idades)" publicada em Novembro de 2008. Aproveito este espaço para continuar civicamente a dar expres
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