Sábado, 25 de Novembro de 2006

O clima, em matéria de educação, tem andado tenso. A Ministra quer introduzir melhorias no sistema educativo. Mas, os professores dão réplica às decisões ministeriais. Os alunos, afinal a quem se destinam as melhorias reformadoras, também dizem de sua justiça, manifestando-se. Todos terão alguma razão. Entretanto, todos vão ganhando tempo de antena.

 

A questão, a nosso ver, é profunda e merece reflexão, não a mediática, que mais confunde do que esclarece. O que está verdadeiramente em causa, nem é o presente, é o futuro. E, medidas de futuro promovem-se com investimento. E, investimento não é dinheiro vivo, é planeamento, é uniformização de critérios, é disciplina, são instalações a contento, como são, e também, conteúdos que ajudem a perceber como construir novos caminhos. Tudo o mais, são medidas de remedeio, afinal custos que não trazem ganhos, nem agora, nem depois.

 

E, a propósito da educação e do português no seu contexto, um dia destes, dizia-me pessoa amiga, quase em tom de revolta: tu já viste esta vergonha, olha ao que chegámos, já nem português escrevemos, se a moda pega no futuro escrever-se-á mesmo assim! E, enquanto isto, desatou um conjunto de opiniões. A minha interlocutora, profissionalmente, enveredou pelo ensino e outra coisa nunca fez se não ensinar para a vida.

 

E continuava: e, tu achas bem. Isto é de gente com juízo? A conversa, afinal o desabafo, nasceu a partir de um panfleto publicitário afixado na janela de um banco, panfleto igual a milhares que por aí disseminam, e dizia: “e tu, keres voar?” Vejam bem, isto é português que se ponha na rua, enfatizava.

 

A conversa estendeu-se a outros mais. Cá com os meus botões “ora agora, os outros é que escrevem à trouche mouche e eu, é que ouço!”. Mas, ela, a professora, tem razão, já não basta a neo-linguística que por aí abunda senão também as entidades que em vez de formar, deformam.

 

O conteúdo do panfleto, pretende chamar à atenção dos jovens para facilidades, como obter dinheiro, sem falar muito. Mas, a questão - achamos nós! - não é de português, é outra; a publicidade está virada para o consumismo. Noutro tempo o crédito estava mais vocacionado para o investimento e não tanto, ou mesmo nada, para financiar o consumo.

 

Mas, se és jovem e “keres voar”, voa! Voa mesmo contra o vento e vence as adversidades; começa por vencer na escola, vence aprendendo, vence exigindo – contribuindo – vence trabalhando. Mas vence com recurso mínimo ao crédito, a não ser para projectos com retorno assegurado (quase!). O crédito fácil trás habituação, tráz endividamento.

 

Mais do que dinheiro o que, verdadeiramente, se precisa é de uma nova educação. De contrário em vez de voar, já estamos aterrar, sem piloto, o que é sempre perigoso.

 

Leiria, 2006.11.25



publicado por Leonel Pontes às 11:24
A participação cívica faz-se participando. Durante anos fi-lo com textos de opinião, os quais deram lugar à edição em livro "Intemporal(idades)" publicada em Novembro de 2008. Aproveito este espaço para continuar civicamente a dar expres
mais sobre mim
Novembro 2006
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24

26
27
28
29
30


pesquisar neste blog
 
blogs SAPO