Quarta-feira, 14 de Agosto de 2013

Neste momento, meado de agosto, Portugal arde. E todos os anos é assim; a floresta é reduzida a cinzas, as famílias nomeadamente as dos bombeiros choram a perda dos seus entes queridos, há equipamentos destruídos pelo fogo, as populações lamentam-se, o Ministro expressa palavras de solidariedade, os telejornais repetem à exaustão imagens medonhas; há anos que é assim, e, assim continua ano-após-ano esta via-sacra.

 

Uma via-sacra com as mesmas queixas; escarneceram, cuspiram-lhe, chicotearam-no, enfiaram-lhe uma coroa de espinhos, e por fim pregarem-no na cruz. Muitas maldades, maldades a expiar pela fé que acaba sempre por tocar no sentimento dos crentes. Porém, um dia, um desses crentes sabe-se lá de quantas vias-sacras, enquanto ouvia o habitual sermão, não aguentou mais e desabafou para quantos o quiseram ouviam “é muito bem-feito, Jesus, já sabe de há muitos anos que é sempre assim, porque é que se mete com gente reles; pró ano fazem-lhe o mesmo!...”

 

E pró ano não há fé que nos salve, temos mais fogos, mais dinheiro gasto ingloriamente, mais perda de riqueza nacional, mais famílias enlutadas, o mesmo, ou outro, Ministro a apressar-se-á a dar palavras de conforto e mais promessas de que vamos ajudar aqueles que tiveram prejuízos – promessas que se perdem no tempo -. Mas medidas concretas, por cobro à calamidade essas tardam e até cremos que nunca hão-de chegar. E há anos que é assim.

 

É assim agora, mas não era assim no noutro tempo, não havia canto quer fosse de mata ou fosse lá o que fosse, que não fosse roçado; era um dever de cidadania. Ponto. Por outo lado, as Matas Nacionais tinham os extintos “Guardas Florestais” que cuidavam da propriedade pública. Cuidadores que ao menor sinal de fogo davam o alerta a partir dos postos de vigia. E hoje?

 

Hoje, dirão os mais puristas: mas isso dá trabalho e despesa. Mas se dá trabalho é bom, porque o que mais temos é gente para trabalhar. Com efeito, não valerá a pena fazer uma análise de custo/benefício, quantificando tudo quanto é gasto direta e indiretamente (prevenção, desmatação, limpeza, etc.,) E, concomitantemente, quanto gasta o país, com pessoal inaproveitado, vidas perdidas, florestas queimadas, riqueza, material reduzido a sucata, etc.,

 

Porque não voltamos às Circunscrições Florestais que, para além do mais, vigiará espaços privados e públicos e a coberto de um Plano de Fomento Florestal, zelam pela propriedade, pela manutenção da floresta, pela preservação do nosso “petróleo verde”.

 

Seja-me relevada a presunção, mas se o Ministério da Agricultura fosse coisa da minha lavra, nem que viessem milhentas excursões de cristas do céu à terra, jamais teríamos aquelas vias-sacras. Noticias tronitruantes como se o flagelo dos fogos fosse uma romaria; essas acabavam. Acabavam.      

 

Leiria, 2013.08.14



publicado por Leonel Pontes às 15:30
A participação cívica faz-se participando. Durante anos fi-lo com textos de opinião, os quais deram lugar à edição em livro "Intemporal(idades)" publicada em Novembro de 2008. Aproveito este espaço para continuar civicamente a dar expres
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