Sábado, 03 de Maio de 2003

Há anos, já a caminho de cinco décadas, que Cuba é notícia. Notícia tão permanente quanto controversa. As as razões são bem conhecidas dos cidadãos, dos cidadãos do mundo! Cuba continua a ser notícia e, uma vez mais, pelas piores razões; a mordaça e a morte. E, para que ninguém se esqueça ou ouse veleidades o grande irmão está por todo o lado “Pátria ou Morte”. Mas, ainda assim, o povo diz, “não há repressão“; desde que aceite seja tudo quanto lhes é ditado.

 Gente boa, educada, simpática, culta, mas profundamente angustiada. Mas, ainda assim, dizem “não falta nada, só falta podermos falar“. Coitados! Quando encetamos conversa tudo serve para discussão, mas se se fala do Comandante logo muda o discurso. Eles sabem muito bem que os portugueses bem sabem aproveitar e desfrutar das suas naturais riquezas, desaguam em Varadero, como aldeão do interior de Portugal acorre ao Pedrogão. E, ainda assim, dizem “ninguém faz nada por nós, temos um grande problema“.

Levei comigo a raiva do nosso Eça, quando em Novembro de 1872 zarpou de Lisboa com destino a Havana à “pérola do império espanhol“ como então escreveu. Aí, exerceu o seu múnus de cônsul, a contragosto, ao que deixou escrito. Levava, pois, comigo a curiosidade em visitar Eça, quase parecendo que ali morava alguém meu conhecido de há muito; afinal o Eça também deixou parte da sua vida em Leiria, onde conspirou contra a frivolidade da época.

Mas, meu caro Eça, saiba aí, onde estiver, que os leirienses de hoje continuam elitistas - talvez mais – e tão frívolos quanto os conheceu. Por isso, na Havana velha – que não na velha Havana – procurei pelo bar do Eça, e, na rua O’reily lá estava o Sr. José Maria Eça de Queirós esculpido em chapa de flandres já oxidada pelo tempo, pregado à parede logo à esquerda de quem entra, aprumado, de monóculo a preceito, pingalim debaixo do braço; jaz impávido e sereno escutando lamúrias.

Sabe quem foi aquele Senhor que está ali na parede, perguntei a um dos funcionários, que respondeu “creio que é um português“, mas ninguém sabia mais do que isto. Porém, ao darem conta que também éramos de Portugal, logo falavam de Saramago – o desiludido, acrescento eu, veja-se o que disse por ocasião da sua visita de recepção com pompa naquele país, e o que diz hoje -, falavam de Sampaio e sabiam que o Figo era um bueno player de soccer.

Estabelecida a conversa, ganha a confiança, todos querem falar, naturalmente do que sabiam. E sabiam que Portugal era um país mui libre, que com a revolução também deu a liberdade a Angola. E dizia o Miguel, “o meu pai esteve por volta dos anos 72 a 74 na guerra de Angola a lutar contra os portugueses - e, porventura teria morto algum, admito – e de lá trouxe de meu nome. Agora está retirado, quem esteve na guerra ajudando países amigos, foi retirado“ (reformado), assim dizia o Miguel que gostava muito de vir a Portugal, se alguém o convidasse e a embaixada desse visto; claro! Outros mais sabiam coisas de Portugal porque também estiveram na Angola livre. Um formado em radiologia, lá trabalhou num hospital, agora toca, canta e é manager do trio, o que mais quer é que alguém compre o CD, ali têm o meio de obter sustento para si e para os seus, bem como está o sucesso dos “Audaces de Hoy”. Irónicos, não são?

Dias depois, na hora da nossa partida, quando nos despedíamos, o Al… deu-me um abraço como se fossemos velhos amigos, dizendo “Oh português, ficas aqui no meu coração” e bateu forte com a mão no peito com olhos rasos de água e “um dia espero que voltes a visitar-me, mas melhor seria que fosse eu a visitar-te”. Pediu-me um CD de fados portugueses, e claro, vou enviar-lho. Enquanto isto, logo pensei, mas porque raio não haverá este povo de ser tão livre como é o nome do “Tripe Habana Libre”, hotel onde tão cavalheiramente fui acolhido, bem como à minha família, por algumas noites.  

Ai quantas histórias trago comigo, ai quanta pena me deixa aquela gente boa e livre no seu imenso cárcere esperando que um dia possam receber dinheiro pelo trabalho que prestam em função das suas capacidades técnicas e profissionais, porque hão-de receber uns parcos pesos, o equivalente a 15 dólares mensais. E porque não podem colocar o seu saber ao dispor da sociedade, criando riqueza. E porque hão-de, por exemplo, cortar a relva das ruas com catanas, tecnologia de há pelo menos 50 anos, quando existem modernas máquinas de jardinagem. E, quando é que aquelas casas de elegante traça, hão-de sentir a caricia de um pincel deixando-lhe uns fios de fresca tinta que já não cheiram desde, desde há quase meio século. E quando terá aquela cidade esgotos, para que as ruas não sejam pinceladas, pelos submissos servos de rabo pró ar, com criolina – coisa que muito do nosso povo nem sabe o que é - para abafar os fedorentos odores vindos de improvisados urinóis de canto de parede. E, quando é que aquela juventude da FEU (Federação dos Estudantes Universitários) que tem a sua sede naquele que fora imponente, hoje degradado palácio, sim quanto tempo faltará para que em uníssono possam dar o seu grito de liberdade. Um de cada vez estão sendo vencidos pelo inclemente cutelo, mas todos juntos, jamais o serão.

 Era isto que queriam trazer para Portugal? Lembram-se de quem calcorreava Lisboa de chaimite ameaçando com o envio dos mais audazes para a praça de touros do Campo Pequeno. Sabem quem disse isto, sabem? Jamais me esquecerei.

 O 25 de Abril de 74 vive-o em Timor, onde convulsões aconteceram, hoje é uma terra, pobre, mas livre. O 25 de Abril de 2003 quis passa-lo em Havana, onde surdas convulsões acontecem a todo o momento em terra farta com gente rica de valores. Um dia destes também hão-de ser livres.

A concluir direi; precisam-se de contributos para a liberdade, um bem que começa a escassear. E mais; estou com Saramago quando diz “que merda de mundo é este que não discute a democracia”, onde tudo é ganho pela prepotência, pela violência, acrescento eu.

 Leiria, 3 de Maio de 2003



publicado por Leonel Pontes às 11:18
A participação cívica faz-se participando. Durante anos fi-lo com textos de opinião, os quais deram lugar à edição em livro "Intemporal(idades)" publicada em Novembro de 2008. Aproveito este espaço para continuar civicamente a dar expres
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