Quarta-feira, 10 de Dezembro de 2014

Todos os dias, durante quarenta anos estudei, elaborei, discuti e analisei, prestações de contas, vulgo balanços de entidades várias. Hoje, devo dizer que nunca me passou pela cabeça ver a bagunçada que o senhor Salgado accionista de referência Banco Espírito Santo criou ao dizer que o aldrabão dos balanços adulterados foi obra o seu contabilista.

Não fora a coisa tomar foros de crime público e ninguém daria mínima atenção à aldrabice. Salgado, ao desresponsabilizar-se passou um atestado de incompetência a toda uma classe de profissionais, que porventura terá entre si quem obedeça à voz do dono e aceite fazer um jeitinho. Contudo, creio, que se o assunto subir à Ordem respectiva, o prevaricador, tendo agido por conta própria ou a mando, não ficará sem pena.

E, pena maior ainda, a meus olhos, foi ver a classe política – os senhores deputados da comissão de inquérito da Assembleia da República - a não saberem interpretar o que são valores passivos. E, se estes aumentassem (em razão sabe lá de quê) que contrapartida emergiria.

Neste ínterim foram aconselhadas leituras de livros de modo a que aumentasse o conhecimento dos interventores. Com efeito, ouso também aconselhar aos senhores políticos que leiam a obra publicada por Luca Pacioli (sempre atual) “Summa de aritmética, geometria, porporcioni et poporcionalita” na qual pela primeira vez (já em 1494) veio à luz da ciência contabilística o estudo das partidas dobradas, obra recentemente traduzida para português pelo Prof. Olímpio Carqueja.

E, com toda a certeza não veríamos os donos do país como lhes chamou Salgado a proferirem dislates de arrepiar. E, nesta senda estamos ante outra vergonha nacional. E já se pergunta “o que vai resultar de tudo isto”. Direi eu: “pelos costumes nada”.

Todavia há que ter em consideração que o facto BES já deixou no povo português acentuado mal-estar porquanto no país todos os dias se levantam ventos de stresse que inelutavelmente destroem o Bem-Estar Subjectivo, (BES) dos cidadãos. Com efeito, para que a nossa crise seja menos crise, os cidadãos têm de viver o dia a dia, num ambiente de bem-estar, numa perspectiva hedónica de felicidade numa dimensão cognitiva propiciadora de satisfação com a vida. E em verdade não é esse ambiente em que vivemos.

Seja-me permitido citar um construto popular que nos diz: “se não é do cú é das calças”. E é assim que vivemos num ambiente onde a felicidade anda arredia das pessoas, onde todos os dias soam notícias que tolhem a motivação, que cerceiam a iniciativa, que desgostam até os mais descrentes. Em suma poder-se-á concluir: e, agora o pirata é o contabilista que de sua conta e risco sem dizer nada ao patrão demonstrando-lhe que vivia uma infinda felicidade que só tristeza e maus ventos trouxeram à sociedade.

E assim se passou mais um ano que ficará para a história dos muitos annus horribiles porque que estamos a passar. E, enquanto isso deixo-vos votos de Boas Festas e Próspero 2015.

 

Leiria, 2014.12.10



publicado por Leonel Pontes às 14:51
A participação cívica faz-se participando. Durante anos fi-lo com textos de opinião, os quais deram lugar à edição em livro "Intemporal(idades)" publicada em Novembro de 2008. Aproveito este espaço para continuar civicamente a dar expres
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