Quinta-feira, 21 de Junho de 2001

O país está em brasa. Altas temperaturas ameaçam a paz social. Estamos a entrar num Verão quente, num contexto diferente daquele longínquo Verão de setenta e cinco. Os portugueses, na generalidade, estão apreensivos, traduzindo-se o seu sentimento numa opinião pública “ isto está mau ! “. O governo rasgou uma linguagem de abastança e agora, infelizmente do muito que disse foram só promessas. Um pai nunca deve apregoar algibeira cheia, e um governo ainda menos. Quem governa deverá ter um sentido de responsabilidade pedagógica. Este governo haverá de ficar na história pelo governo dos milhões. Milhões que prometeu, e milhões que gastou sem luzimento. Entre o mais, vejamos:

 

O endividamento dos cidadãos é uma realidade para o qual não existe terapia, pelo menos a curto prazo. A bolsa continua endémica e é caso para dizer, mas que trambolhão !. A despesa pública atingiu cifras para além do comportável. A economia arrefeceu e os balões de oxigénio estão a voltar ao mercado. O país está a gastar dinheiro garantindo rendimentos a quem, em muitos casos não quer trabalhar, e ao mesmo tempo vamos importando mão d’obra. Buzinões, um comportamento social made in PS, sucedem-se já por tudo e por nada. Por outro lado, para animar a populaça temos prestes a entrar no top musical o Zé Cabra; com mais um jeitinho vai lá !

 

Pois bem, por muito que nos custe este é um cenário evidente a nossos olhos. Poder-se-á encontrar uma explicasãosita mais para aqui, ou mais para ali, mas o que é evidente dispensa demonstrações.

 

Depois ainda deste negro quadro temos aí instalado o terrífico flagelo dos cidadãos enganados, roubados, espancados, esfaqueados, assassinados. Isto será consequência de quê ? Também não temos segurança, e pelo que por aí corre os agentes da ordem pública também não estão para se meter em chatices, porque às tantas temos os papeis invertidos. É um outro serviço que não aproveita ao país.

 

O que está acontecer ao meu país não era coisa previsível há uma década atrás, tudo apontava num outro sentido e politicamente era isso que os cidadãos esperavam. Dir-se-á, pois é, mas em democracia os governos ascendem ao poder pelo voto do povo, pois é, mas quando o povo acredita facilmente em promessas e contos, também de modo fácil cai no abismo, e há muita gente que não tem culpa desta vaga de mau estar, de resto uma vaga em contraciclo com o que seria espectável.

 

De resto, Alvin Tofller proeminente figura do pensamento económico-político, na sua obra “ a terceira vaga “ ao caracterizar a evolução do desenvolvimento económico e social, não concretamente para Portugal como é óbvio, mas num certo contexto europeu, por razões que andam próximas do quadro que vivemos em Portugal, com tendência para agravar, se não for posto cobro aos desmandos. Com efeito, Tofller admite o “ desmembramento da família, que há-de abalar a economia, a paralisação dos sistemas fiscais e destruição dos nossos valores “.

 

Ora, sem mais notas, aqui temos um quadro de reflexão para degostar neste início de Verão quente, uma reflexão que por certo, cada um à sua maneira não deixará de fazer, no âmbito dos partidos da cena política portuguesa. Para já, e por certo temos que, para além do endividamento - daqueles que o têm, obviamente - dos cidadãos há o endividamento do país que só se resolve com uma nova política, daí pois um novo conceito de gestão da coisa pública “ o endividamento geracional “.

 

Contributos é quanto poderei dar, embora não me restam dúvidas que pouca força tenho para mudar este estado de coisas, ruins, do meu país, mas uma coisa direi; não deixarei de dizer o que meus a meus olhos é dado ver.



publicado por Leonel Pontes às 15:39
A participação cívica faz-se participando. Durante anos fi-lo com textos de opinião, os quais deram lugar à edição em livro "Intemporal(idades)" publicada em Novembro de 2008. Aproveito este espaço para continuar civicamente a dar expres
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