Sábado, 05 de Agosto de 2000

 

Drucker, guru da gestão, produziu e continua a produzir abundante literatura, no âmbito das ciências empresarias defendendo, ao longo de quase um século de vida, que o sucesso dos homens de negócios jamais estará dentro dos muros das grandes quintas, antes estará no saber, sendo certo que este mestre bem conhece a evolução tecnológica, nomeadamente, dos últimos cinquenta anos. 

A artesanal prancheta sobre a qual eram efectuados lançamentos contabilísticos, as máquinas de registo mecanográfico daquelas mesmas operações ou os escamartelhões dos computadores com portas de inserção de disquete do tamanho de um portão de quinta, eram ainda há menos de um quarto de século utilíssimas ferramentas de apoio à gestão. Hoje são peças de museu. Comparando aquelas tecnologias com os actuais equipamentos informáticos com relevo para os minúsculos computadores portáteis conectados estes com os grandes sistemas de informação, assentes naquele irreverente génio inventivo e bem sucedido de Bill Gates, não há dúvida que estamos perante uma maravilha das tecnologias da neo-economia. 

Se entretanto estabelecermos uma coligação racional das novas ferramentas, entendam-se estas pelo conjunto de máquina e programa, se lhe adicionarmos a experimentada razão de ciência do velho guru far-se-á um produto explosivo capaz de provocar autenticas maravilhas. E, se por seu turno, a este composto adicionarmos aquele outro que só tem quem tem, e não quem quer, o saber e o conhecimento, então ter-se-á em mãos uma revolucionária ferramenta para e produzir confortáveis riquezas quando comparadas com as fontes de rendimento do princípio do século, ora a expirar.

Está provado à evidência que para fazer, seja o que for, é preciso saber do que estamos a tratar, e depois é preciso conhecer os meios que temos ao nosso alcance, de modo a que com estes possamos construir ferramentas de apoio ao desenvolvimento e ao crescimento dos negócios. Quem tiver a ousadia de assumir a gestão do que desconhece, ganha, desde logo, o direito a que mais cedo ou mais tarde confrontar-se-á com a dura da realidade das derrapagens (noutros tempos chamava-se falência), e não haverá tecnologia por mais sofisticada que seja que possa salvar as incapacidades ou o desconhecimento de quem gere, impondo modelos adquiridos a pacote, por vezes muito caros.

Contudo, o contrário também é verdade, isto é, por mais moderno e sofisticado que sejam as tecnologias e bem assim os sistemas de apoio à gestão, se estas não estiverem conectadas com o negócio e conduzidas por quem com o processo saiba lidar é certo que o tempo inexoravelmente apontará o caminho do insucesso. E, não é só e apenas nos casos de sucesso que tiramos conclusões e vemos exemplos, os casos de insucesso, no fundo são os verdadeiros casos de estudo.

Com efeito, em tempo, dizia a imprensa de grande tiragem deste país que uma então próspera empresa, aplicando as sobras dos seus recursos e potenciando o know how adquirido ao longo dos anos, implantou-se num promissor país do leste, para aí deslocando pessoas acompanhadas de um sofisticado sistema informático sob o qual a gestão se haviaria de adaptar. Cedo se veio a constatar que aquela empresa experimentava grandes e graves dificuldades.

Diz o povo que nos erros dos outros corrigimos os nossos e por isso aquele erro estratégico, acompanhando-o, serviu-me de estudo. E é assim que de novo vem à luz do dia, nas páginas da imprensa, um relato de insucesso com uma derrapagem nos resultados e com um endividamento que ascende a muitos milhões de contos. Diz-se agora que o grande responsável pelo insucesso foi (é) o sistema informático.

Nestas coisas de insucessos, sejam eles de uma empresa de bens alimentares, sejam eles a construção de um empreendimento nacional como a Expo 98, sejam eles as obras o metropolitano de Lisboa, tudo se passa sem culpados. Isto faz lembrar aqueles três milhões e meio de portugueses que fumam ao lado de outros prejudicando-lhes a sua saúde, vêm agora dizer que vão pedir indemnizações às tabaqueiras para ressarcir os seus erros. 

Com efeito, nestas coisas, quiçá inexplicáveis, de má gestão que por aí graça, só estou à espera de ver um dia destes alguém a pedir que seja Peter Drucker e/ou a Bill Gates a indemniza-los pelas incapacidades de gestão ruinosa que fizeram.

E quem perde? Todos nós, claro. Os erros cometidos, nos empreendimentos geridas por gente nomeada pelo governo, são cobertos com dinheiro dos nossos impostos. Os erros cometidos nas empresas privadas também pagamos por via das abruptas quedas em bolsa, e em última instância somos sempre nós quem perde, porque o peso do orçamento do estado será distribuído por todos aqueles que geram riqueza, os outros dela se aproveitam e assim vão gozando a vida. 

Leiria, 5 Agosto 2000



publicado por Leonel Pontes às 15:16
A participação cívica faz-se participando. Durante anos fi-lo com textos de opinião, os quais deram lugar à edição em livro "Intemporal(idades)" publicada em Novembro de 2008. Aproveito este espaço para continuar civicamente a dar expres
mais sobre mim
Agosto 2000
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11

13
14
15
16
17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


pesquisar neste blog
 
blogs SAPO