Sexta-feira, 14 de Julho de 2000

No dizer dos responsáveis políticos à época da revolução dos cravos, os portugueses fizeram uma descolonização exemplar. A questão vai caindo para velha, as opiniões são diversas, mas os factos dão-no-la à evidência e agora pouco adianta repisar a questão. Porém, não podemos ficar insensíveis aos envergonhados apelos que de modo permanente chega ao nosso conhecimento, como é o caso de S. Tomé e Príncipe. 

Há alguns meses atrás, chegou-me à mão fotografias com aspectos desoladores do que resta daquela terra e da obra deixada pelos portugueses; uma terra de prosperidade, hoje não é mais do que ruínas, doença, fome e miséria. Aquelas fotos em contraste com as belezas naturais eram por demais esclarecedoras do estado de degradação a que tudo vai chegando em S. Tomé.

Mas, como bem, diria o S. Tomé, só ver para crer. Um dia destes, numa comovente reportagem produzida pela televisão portuguesa, a todos foi dada a oportunidade de ver quanto miseravelmente vive aquele povo. E, sobretudo vimos e podemos comparar o modo como se apresentavam os saotomenses naquele dia em que Rosa Coutinho fez a passagem de testemunho. Aquele povo respirava alegria, apresentava-se decentemente vestido. Agora veste-se de farrapos, vive descalço e sem perspectiva de vida. 

É certo que aquele povo no seu hino cantava a sua “ independência total, consciência total ... “ Porém, estavam ( viviam ) sem o conhecimento político bastante para perceber que a independência total só tem lugar para quem vive em total dependência. Passado um quarto de século, podemos constatar que a independência política, dada num processo político apressado como brasa que queima, levou- os à totalmente dependência de terceiros, porquanto nem o mínimo de subsistência conseguem.   

Parecerá, pois, que económicamente, aquela terra tem alguma viabilidade, e porventura tê-la-à, mas no acelerado estado de desagradação em que se encontra, não. Não citaremos casos relatados, mas a fazer fé nestes, quando o próprio Presidente da República, desprovido de objectivos e de afazeres, passeia pela rua e sem a menor escusa aceita da mão de um turista um simples gelado, a isto não se poderá chamar de cortesia.

Voltando ao princípio. Os governos pós revolução têm demonstrado alguma inabilidade no relacionamento, com os países descolonizados. Por vezes até geradores de focos de polémicas. Eu ousaria chamar à atenção dos portugueses, dos que estão no governo, dos que deveriam fazer oposição e madornam, dos que têm engenho e arte para exercer o magistério de influência, chamo à atenção dizia para que alguma coisa seja feita no sentido de levar a cabo uma maior aproximação dos países que o desejem, como é o caso de S. Tomé e Princípe. 

Naquela reportagem os entrevistados, secos e breves de palavras, sempre diziam que Portugal os deveria ajudar, e ajudar não é consignar uns fundos no orçamento de estado para dar numa cerimónia para cativar atenções em períodos eleitorais, ajudar é remediar o que a descolonização exemplar deixou por fazer, como seja, entre o mais, estabelecer contactos bilaterais, por exemplo, na aquisição de mão d’obra, através de acordos de cooperação económica, que não a escravatura que sofreram no passado.

Leiria, 14.07.2000



publicado por Leonel Pontes às 11:17
A participação cívica faz-se participando. Durante anos fi-lo com textos de opinião, os quais deram lugar à edição em livro "Intemporal(idades)" publicada em Novembro de 2008. Aproveito este espaço para continuar civicamente a dar expres
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