Quinta-feira, 03 de Março de 2011

Creio que já dei a texto, algures, esta estória, ou uma história, como esta. Mas se escrevi, como eu, já ninguém se lembrará se leu. Nós, portugueses, somos uns esquecidos, esquecemo-nos com muita facilidade. Esquecemo-nos, pronto!

 

Mas a história (o facto) é.

 

O tempo corria, aparentemente, de bonança. Mas de súbito – não tanto quanto isso - fez-se agreste, como aquele em que temos vivido, ultimamente. Curioso com o mundo a que chegara, um sementeiro, numa manhã fria até aos ossos, convicto da sua autonomia, pensando que tudo sabia, atreve-se a saltar do ninho onde o haviam colocado. E, vai daí pôs o pé (que é como quem diz, pôs a pata) em ramo verde.

 

Porém, o bicho não sabia que, ainda não sabia voar. E, o frio tolhia-lhe os movimentos. Enquanto isso, passa por debaixo do ramo onde se havia empoleirado, em passe estugado nutrido animal de ventas empinadas, a caminho das suas lides (sabe-se lá quais!). Sem demasias, faz - para curiosidade do empenujado chilreante -, a rês fez… defeca tremenda bosta.

 

Frio como estava o tempo, o intestinal excremento fumava como se irradiando calor. A ave (mas quem é que dizia isto; de vem esta ave agora?) já sem forças, quase desfalece e estatela-se em cheio sobre o quentinho excremento. E, por momentos, mesmo afogado no fedorento calor, disse “ai que bem se está aqui!”.

 

Contudo à medida que a malcheirosa almofada ia passando do estado fofo ao estado rijo, o pequeno passarinho pensava “e agora quem me tira daqui?”

 

Após aturada luta para que não ficasse sepultado na bosta, eis que de mansinho, faminta de palco, como quem vem de pantufas, se aproxima silvestre gata. O empenujado atolado até à medula, borrado por todo lado, pensou: a bicha não me fará mal! -. O que deu um enorme ânimo ao sementeiro. Logo pensou “pronto, estou salvo!”.

 

Mas, o diabo vinha com a felina que não teve com contemplações; à medida que o salvava o passarinho (assim pensava ele), logo começou a degluti-lo, deixando-lhe apenas uns breves instantes para um último pensamento. Qual fosse!

 

Ante a desgraça em que havia caído, do alto do seu chilreio, proferiu em voz trémula; “olhem, meus amigos, nem sempre aqueles que nos tiram da "merda" são nossos amigos!”

 

Que agrestes vão os tempos. Frios; não vão?

  

Leiria, 2011.03.03



publicado por Leonel Pontes às 10:22
A participação cívica faz-se participando. Durante anos fi-lo com textos de opinião, os quais deram lugar à edição em livro "Intemporal(idades)" publicada em Novembro de 2008. Aproveito este espaço para continuar civicamente a dar expres
mais sobre mim
Março 2011
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
15
16
17
18
19

21
22
23
24
25
26

27
29
30
31


pesquisar neste blog
 
blogs SAPO