Segunda-feira, 14 de Março de 2011

O regime era ufano do “orgulhosamente sós”. Nós – aqueles que! - contestávamo-lo. A ousadia saía cara. Mas o que lá vai, lá vai!

 

O futuro era de sonhos. Sonhávamos com a liberdade – falar livremente, sem as pidescas “escutas”, sonhávamos com o direito de igualdade; onde ninguém fosse marginalizado. Sonhávamos!

 

O tempo ia passando, e a nossa (a minha geração) suportava o bastão e os calabouços, a descriminação, suportou uma guerra colonial. Por fim, faz uma revolução. Enquanto isso, a Europa do pós-guerra reorganizou-se. Aderimos à Comunidade Europeia e passámos a ter só amigos?!

 

E, do orgulhosamente "sós" passamos a estar “orgulhosamente acompanhados” numa comunidade em permanente crescimento, uma comunidade que se abria e trazia bem-estar. O muro da vergonha caiu. Países, até aí da cortina-de-ferro, também entraram na grande comunidade.

 

Cada vez mais acompanhados fomos ficando. Passámos a receber ordens a granel; arrancar vinha, arrancar oliveira, fechar actividade artesanais, limitar quotas leiteiras, etc. Em troca grandes projectos de desenvolvimento.

 

Hoje, vivemos melhor? Depende do ponto de vista. Pelo menos estamos mais pobres. Endividámo-nos como nunca estivemos, pagamos juros como nunca pagámos. Em vez de herança física, deixamos dívidas.

 

E repetimo-nos; vivemos melhor? Depende do ponto de vista. Passámos a ser governados por gestores de primeiro emprego que não sabem destrinçar, gestão de liderança. As coisas gerem-se, as pessoas lideram-se. É isso que tem acontecido? Não! Mas dizem-se líderes!

 

Sós, sozinhos, continuamos, sem apoios, sem solidariedades, sem a mão amiga de ninguém. Mas dizem; temos redes sociais!.. E, enquanto isso vemos o nosso “semelhante” a sofrer, a morrer, a apodrecer “sós”.

 

Um dia disse-me o meu avô que o pior que ao homem podia acontecer, era morrer, mas nem isso grande mal havia de ter, porque morrer, tem de ser. Verdade! Mas morrer assim não é morrer. Ou é?

 

Nunca pensámos que, o que vemos pudesse acontecer. Sonhávamos um outro mundo. Não este a que temos assistido, ultimamente. Os nossos concidadãos jazem “mumificados” durante quase uma década dentro de casa, coabitando com gente que nada faz, gente que nada pode fazer, porque a palavra de ordem é; obedeça-se às leis do país, ainda que, de nada ajudem socialmente.

 

Nem no mais subdesenvolvido país, acontecem coisas como acontecem em Portugal. Sós, até na morte. Mas porque não se morre “orgulhosamente acompanhados?”

 

 

Leiria, 2011.01.14



publicado por Leonel Pontes às 14:22
A participação cívica faz-se participando. Durante anos fi-lo com textos de opinião, os quais deram lugar à edição em livro "Intemporal(idades)" publicada em Novembro de 2008. Aproveito este espaço para continuar civicamente a dar expres
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