Quinta-feira, 14 de Novembro de 2002

Há, na sociedade portuguesa, um crescendo mal-estar. Porventura temos andado a ganhar maus hábitos, aprendemos a viver como se já fossemos gente rica; até ganhámos a teimosia de nos comparamos aos nossos parceiros da União Europeia.

 

Mas convenhamos, existem assimetrias próprias de cada espaço económico. A América, Estados Unidos, é um país rico, mas também aí, entre cada um dos seus 51 estados, existem realidades económicas diversas; também têm gente pobre.

 

Em tempo reflectindo sobre estas questões, trouxemos aqui um texto sobre contabilidade geracional; isto é, andamos (anda o país) a constituir dívidas que os nossos vindouros hão-de pagar.

 

E, volvido que vai o tempo, tendo por suporte, tendo por testemunho, o que diariamente observamos, cada vez mais, também vamos ganhando certezas; vivemos tão pobres hoje como no passado, não obstante a nossa qualidade de Estado-membro dessa União, desse edifício em contínua construção, cada vez mais complexo, mais preso de movimentos, mas que ainda assim teima em crescer, por vontade dos homens, obviamente, porque ali está a abastança.

 

É o que se depreende do discurso de quem no novel grupo pretende ingressar.  

 

No passado coexistiram nesta mesma Europa, quatro figuras que marcaram a agenda política durante muitos anos; um grego, outro italiano, outro alemão, e um outro português. Cada um a seu jeito, deixou marcas, referências, que ousamos citar; não pela primeira vez.

 

O grego, Metaxas, (1941) pela acção das suas reformas, ficou conhecido pelo mete taxas. O italiano, Mussolini (1945) pelos seus comportamentos, algo divertidos, haveria de ficar conhecido pelo larachas. O alemão, Hitler (1945) pela dureza de princípios célebre ficou pelo vais-ou-rachas. O português, Salazar (1970) pela forma como depenava os cidadãos, cognominado ficou pelo sobretaxas.

 

Felizmente que aqueles tempos já lá vão e de modo nenhum, quaisquer que fossem os apoios, tais cenários vingariam nos dias de hoje. Mas, ainda assim poder-nos-emos questionar, “ e o que dirão os nossos vindouros ao avaliarem a obra que lhes legámos? “

 

É que, nomeadamente, em matéria de dinheiro, de insolvência dos cidadãos e de instituições, de falência de unidades económicas, cada vez mais falamos (porventura com outros termos) de contabilidade geracional; isto é, mais não andamos a fazer que não seja diferir para o futuro custos incorridos no presente. Em vez de acumularmos riqueza, há muito que acumulamos dívidas que gerações futuras hão-de solver.

 

É certo que paralelamente a estes fenómenos uma nova civilização vai nascendo e consigo traz novos estilos, modos diferentes de trabalhar, de amar e viver. E, obviamente, uma nova economia.

 

Mas, tudo isto, tudo o que vemos, tudo o que vai acontecendo; gente que gasta e não produz, gente que se endivida, gente que rouba e enriquece, gente que rouba e apodrece, gente que não obedece, gente que subverte regras, princípios e leis; uma anarquia em instalação! E o que dizer dos poderes instituídos. O que se passa na Assembleia da República? Gente medíocre? E isto o que de melhor o país tem? Não, não são culpas que possamos assacar a este e a um só governo! Tudo isto, serão sinais do ranger da democracia?

 

Leiria, 14 de Novº de 2002

in intemporal(idades) |  pag. 94  |  2008

 



publicado por Leonel Pontes às 23:03
A participação cívica faz-se participando. Durante anos fi-lo com textos de opinião, os quais deram lugar à edição em livro "Intemporal(idades)" publicada em Novembro de 2008. Aproveito este espaço para continuar civicamente a dar expres
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