Sábado, 01 de Setembro de 2007

Estava em Tallinn, capital da Estónia, recém alforriada da cortina de ferro. Num breve intervalo de tarefas aproveitava para queimar tempo p’rá hora do jogo Estónia-Portugal. Calmamente visitavamos a zona velha, muralhada, qual parecença com a nossa velha Óbidos.

 

A páginas tantas, o meu colega de promenade, Mont’Álverne Brou, atende o telemóvel (o criado mais barato do mundo moderno, mas mal criado quanto baste! berra pelo dono onde quer que seja, chegando a ser inconveniente. Havia de haver sinalética, em determinados sítios, como a dos cães, a dizer “aqui não entram telemóveis”) e falou; de quê, não dei conta. Mais adiante pede-me, por momentâneo empréstimo, o meu criado barato, o dele, não tinha função de roming activada.

 

Falou e disse; vamos andando, vem aí o Belmiro! Amigos há-os por toda a parte; disse para comigo. Lá fomos rua fora. Já no Hotel, o telefone de Brou volta a sonir. O viajante, acabara de vencer o golfe da Finlândia, vindo de Helsínquia de helicóptero. Um pulo. Vamos recebê-lo, continuou Brou. Acabava de chegar o amante do desporto, que estando ali tão perto, disse não poder deixar de ver e apoiar a selecção nacional.

 

Mas, para espanto meu o viajante era, nem mais nem menos, o Engº Belmiro de Azevedo acompanhado de sua esposa Drª Margarida. Estás bom; disse ele para o meu colega de tarefa desportiva. Enquanto isto, o Brou (também ele Engenheiro e gestor, foram colegas de curso; prezam a amizade) fez as apresentações, e terreu-teu-teu, lá fomos caminhando para um canto mais recatado (e eu, cá com os meus botões; quem havia de dizer, aqui a tomar um drink com o homem mais rico de Portugal)

 

A tarde caía e continuávamos a queimar tempo, esperando que a hora do jogo se aproximasse. Enquanto isso, falámos, falámos como se tivéssemos todos a mesma confiança e amizade (eu, só o era amigo de circunstância) mas estar ali a conversar com o homem que mais emprego sustenta no país, era momento único. As conversas, as dele, brotavam sempre linguagem económica e financeira. Falava com um vigor das coisas do país, e até Leiria entrou na contenda. Impressionante. Informado até ao tutano.

 

Mas, porquê cronicar agora sobre ricos; o que é que isto interessa? Interessa e até diria, agora que tanto se fala do coaching nada se perdíamos em ouvir, cá no meio, o maior empresário do país falando de gestão e afins. E, porquê? Porque o país, neste momento em que escrevo e há algum tempo a esta parte, anda agitado por causa de desinteligências entre bogalhudos.

 

Os accionistas de certo banco têm dado uma imagem mísera do que são, chegando mesmo a haver ataques pessoais – e eu a pensar que linguagem grossa era coisa só de pobretanas! – a dizer que o senhor fulano, o melhor que fazia era pôr-se a andar para casa e dar milho às galinhas! Também não é má função, mas com os diabos, será que aqueles senhores não têm capacidades para mais?

 

E o que sobressai da imensa polémica? Sobressai que os protagonistas da estória do banco são uns algozes por dinheiro e, por via disso quase se matam. Mas têm demonstrado estar interessados com a economia do país? Não. O que mais querem é que o banco continue e cobrar bem às pequenas empresas e a publicitar milhões de lucros, em detrimento duma necessidade real que é a criação de riqueza pela via do empreendedorísmo e da criação de emprego.

 

Aprecio muito, mesmo muito, quem fez vida a pulso (porventura aqui e ali queimando a ética), sem horários, todos os dias, por cá e por lá, sem parar, sempre labutando em prol de um país mais moderno e próspero, como a Finlândia onde só a produção dos telefones quase sustenta o seu orçamento. E bom, treinadores temo-los, jogadores de campo é que não, temos os da bolsa e os do bolso. Assim não vamos lá!

 

Leiria, 2007.09.01

in intemporal(idades) |  pag. 206  |  2008



publicado por Leonel Pontes às 23:23
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A participação cívica faz-se participando. Durante anos fi-lo com textos de opinião, os quais deram lugar à edição em livro "Intemporal(idades)" publicada em Novembro de 2008. Aproveito este espaço para continuar civicamente a dar expres
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