Quinta-feira, 11 de Agosto de 2011

Ajeitada a saca do farnel - sabe-se lá com quê! –, ripava do cabide o último atavio; o chapéu. Saia porta fora rumo à estação do comboio com destino à Capital.

 

Ao tempo a linha do Oeste tinha um movimento sem par; de lá – da grande urbe - vinham uns senhores a banhos para S. Martinho do Porto, como fora Vitorino Nemésio ou para a Figueira da Foz.

 

De cá, nomeadamente, do norte do concelho de Leiria, partiam queimados pelo estio abrasador das matas, os industriais; da Guia, de Monte Redondo como fora Carvalho, ou de Monte Real. As serrações desenvolviam-se, os meios de transporte em especial os ferroviários, faziam-se anunciar, quais baratas loucas, pelo seu roufenho apito.

 

Enquanto isso, à falta de meios de transporte novos, recuperavam-se caterpilas da guerra; davam um jeitão. Mão d’obra havia, mas não muita, todos queriam experimentar outras paragens e partiam de assalto rumo a França.

 

Os mais novos, dentro do possível, supriam essas faltas. E, logo a partir dos doze anos, íamos (eu também fui) para as fábricas. Os que e tinham mais jeito apanhavam os serviços com cariz de especialização, os outros serviam para alombadores.

 

Para além da saca de retalhos, forrada de pano forte, não fosse esvair-se pelas costuras coisa de maior monta, também ia uma livreta de apontamentos acompanhada pela esperança de bons negócios; uns tabiques, uns forros de meio-fio, uns soalhos aparelhados de macho-e-fêmea, uns tacos de veia fina e mais umas madeiras de qualidade “a nossa fazenda, dizia um deles, é do melhor que há nas nossas matas!”

 

Na volta, os industriais (que eram gerentes, vendedores, caixeiros viajantes; exerciam toda uma panóplia de funções) depois de visitarem os estanceiros estabelecidos na Capital e só depois de haver a certeza de frete assegurado, regressavam pelo mesmo caminho; sempre com a mesma saca.

 

A saca também servia para trazer de volta a cobrança do fornecimento anterior (fornecia-se uma vez mais a quem pagava a anterior) por entre as migalhas de broa e um ou outro caroço de azeitona, embrulhado para disfarce, em papel de jornal, vinham as azuis notas de “conto de réis” o capital necessário para fazer girar o negócio; a indústria.

 

Ao tempo os industriais estavam limitadíssimos ao exercício das actividades económicas por via de um conjunto de obrigações nem sempre fáceis de ultrapassar o “condicionamento industrial”.

 

Ainda assim teimavam, sem embargo das muitas fiscalizações a que estavam sujeitos, eram os do Ministério da Industria (esses vinham de Coimbra) do Ministério das Corporações, Ministério do Trabalho, eram as finanças (já ao tempo!) e outros mais, cada qual com as suas funções; mas também aparecia a GNR, bem como uns senhores de ar sisudo e geralmente de óculos de sol (esses eram os da PIDE) soube-o mais tarde.

 

Com tantas limitações, atropelos e fiscalizações, os industriais lá iam criando trabalho (agora dito de postos). Mas, não é menos verdade que as condições de trabalho eram duras (não havia a maquinaria que hoje se dispõe, eu mesmo trabalhei até altas horas da noite a fazer cálculos de cúbicos e quadrados, à mão; papel e lápis. Como bem me lembro quando vi pela primeira vez essa coisa estranha a “odner” que fazia contas depois de umas maniveladelas para a frente e umas outras para trás)

 

Hoje temos milhares de jovens com formações e qualificações de toda a ordem que só sabem dizer “não há empregos”. E, por isso mesmo, ouso perguntar: mas, se está tudo por fazer, pelo que esperam! Ah temos muitos atropelos por parte dos governos. Pois têm! Mas hoje podem manifestar-se. Porque não se manifestam em ordem a dizer aos governantes que o “trabalho” para que seja fecundo não pode ser atrapalhado.

 

Manifestem-se, não para que vos seja dado um rendimento mínimos que só fomentam o ócio, manifestem-se exigindo as necessárias condições de trabalho. O resto, os impostos, esses virão mais tarde; o estádo é paciente, mas não perdoa; portando que esperem que seja gerada a riqueza, e depois tributem-na, deixem-se de ser “estrábicos” tributando a riqueza antes que esta seja gerada.

 

A continuar pelo caminho por onde nos (vos) levam um dia destes não teremos nem industriais nem empresários, bem como não teremos empresários nem empresas.

 

Porto Santo, 2011.08.011



publicado por Leonel Pontes às 16:38
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A participação cívica faz-se participando. Durante anos fi-lo com textos de opinião, os quais deram lugar à edição em livro "Intemporal(idades)" publicada em Novembro de 2008. Aproveito este espaço para continuar civicamente a dar expres
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